24 de janeiro de 2012

Mas ando de saco muito cheio com essas coisas. De repente tô trabalhando num lugar que me obriga a ir contra tudo que penso e sinto. Não sei como resolver tudo isso. Mas tudo bem, tô calmo e ponderado, embora a vontade seja de agredir todo mundo, dizer meia dúzia de verdades e sair pisando duro. Não vou fazer nenhuma loucura.

(Caio Fernando Abreu. Carta a Nair Abreu)
… QUANDO SE QUER EXPLICAR O INEXPLICÁVEL SEMPRE SE FICA UM POUCO PIEGAS.
Caio Fernando Abreu. Réquiem por um fugitivo, in: O Ovo Apunhalado

18 de janeiro de 2012

E tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. Colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. É pra mim mesmo.
(Carta a Jacqueline Cantore, Vila de Santa Teresa, 2O.O5.83)

17 de janeiro de 2012

Fiquei pensando nessas coisas e lembrei duns versos de Bob Dylan, que me vieram em português — não sei em inglês, nem de que canção seriam: “Se eu quisesse, poderia enlouquecer/sei tantas histórias terríveis”. Algo assim.
(Carta a Jacqueline Cantore. Sampa, 18 de abril de 1985.)

E lembro daquela história zen, o rei que pediu ao monge um talismã que o protegesse de qualquer mal. O monge deu ao rei um anel, com a recomendação de abri-lo só em caso de extremo perigo. Um dia, o castelo foi cercado pelos inimigos, e o rei encurralado numa torre. Ele abriu o anel. Dentro, havia um papelzinho dobrado. Ele abriu o papelzinho e leu uma frase assim: “Isto também passará”. 
(Carta a Sérgio Keuchgerian. Na cidade alagada, 27 de janeiro de 1987)

É tolo chafurdar em pântanos de depressão com pouco mais de 20 anos, você não acha?
(Carta a Luciano Alabarse. SP 02.08.90)
Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.
(Sem Ana, blues, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
Mas agora, tantos anos depois, não saberia se tive mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as  outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca.  
(Caio Fernando Abreu. O destino desfolhou, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
E sabia que ao tragar dizia ainda qualquer coisa como “está bem, se você não quer ajuda fique aí sozinho, meu bem, vou fumar o meu cigarrinho e esperar que ou você ou eu cansemos, e se você cansar primeiro, você fala, e eu cansar primeiro, durmo outra vez e amanhã acordamos e tomamos café como todas as manhãs, meu bem, e não se fala mais nisso, está o.k. assim?”.
(Caio Fernando Abreu. Caixinha de música, in: Morangos Mofados)

Foi então que a vi. (…) E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar — exposta, imoral, escandalosa — sem se importar que a vissem sofrendo.
Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para sua própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de neon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca-grossa da vida.
(Caio Fernando Abreu. Pálpebras de neblina, in: Pequenas Epifanias)
Me olho no espelho (só de relance, não devo me deter demais, é perigoso) e digo quieta, sua bicha, vai fazendo tuas costurínhas aí e pára de bancar a Cinderela. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Gerd Hilger)
Mas Deus, lá em cima, está vendo tudo. O problema é que Ele esqueceu de pôr os óculos. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Jacqueline Cantore)
Entre os ramos cobertos de flores havia uma espécie de vão, uma fresta, uma porta, e eu fui entrando por ela até ficar dentro daquela coisa colorida. Era escuro lá dentro. Era cheio de galhos trançados e torturados, e muito escuro, e muito úmido, parecia assim ter feito uma grande dor ali cravada naquele centro cheio de folhas apodrecidas e flores murchas no chão. Pelo vão, pela fresta, pela porta eu conseguia ver o sol lá fora. Mas aquele lugar era longe do sol. Era uma coisa, uma coisa assim desesperada e medonha, você me entende? Então pensei em sair lá de dentro imediatamente, sem olhar para trás, mas ao mesmo tempo que queria ir embora, queria também ficar para sempre lá, e se me descuidasse, se alguma coisa mínima em mim perdesse o controle eu me encolheria ali naquele chão frio, olhando os galhos tão emaranhados que não passava nunca um fio daquela luz do sol lá de fora.
(Caio Fernando Abreu. Caixinha de música, in: Morangos Mofados)
Então eu tinha esquecido que esta cidade te cobra preços altos. Ela é uma mulher (ou um homem) belíssima(o) que se oferece, tentador(a), como se amasse, te envolve, te seduz — e na hora em que você não suporta mais de tesão e faria qualquer negócio, ela(e) te diz o preço. Que é muito alto. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Luciano Alabarse)


Não encontrei Deus ainda, como você. Ele não veio até mim — e digo isso lembrando de um provérbio zen: “Quando o discípulo está preparado, o Mestre vem a ele”. Ainda não veio. Ainda não estou preparado.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Luciano Alabarse)
(…) e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo  aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim, enquanto meus dentes penetrando nas veias da tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência (…)
(Caio Fernando Abreu. À beira do mar aberto, in: Os dragões não conhecem o paraíso)
Penso, com mágoa, que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral, sei lá, não quero ser injusto nem nada — apenas me ferem muito esses teus silêncios. A sensação que tenho é que você simplesmente não está a fim de transar muito — e cada vez que tomo a iniciativa de escrever, é sempre meio tolhido, sem naturalidade, com medo de incomodar, de ser indesejável. Não é uma coisa agradável. Seja como for, continuo gostando muito de você — da mesma forma —, você está quase sempre perto de mim, quase sempre presente em memórias, lembranças, estórias que conto às vezes, saudade.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Hilda Hilst)
Já repararam como, em dias quentes e azuis na beira da praia, no Rio, todos parecem deuses? Nesse dia, pareciam. Não só as adolescentes de cintura fina e cabelos encharcados de sal, mas também as mulheres um tanto passadas, e os homens também, e até os velhos pareciam deuses cansados, mas deuses. As cores, talvez, as peles, não sei ao certo. Há sempre um toque de divino no humano em dias assim, pensei. 
(Caio Fernando Abreu. Agostos por dentro, in Pequenas Epifanias)
É o único rosto vivo em volta, nunca me engano. Chega devagar, pede licença, sorri, pergunta: “E você acha que aqui também é um deserto de almas?” Não preciso nem olhar em volta para dizer que sim, aqui também. E os desertos, você sabe — sabe? — não param nunca de crescer.  
(Caio Fernando Abreu. Divagações na Boca de Urna. In: Pequenas Epifanias)
Você tem que ser mais Escorpião e cortar fora a parte ferida. Chega de meias-solas e paliativos. Na minha opinião, você precisa de UMA BOA CAMA (ou várias) […]. Toma um porre, fuma um baseado, mas por favor — desguia. Daqui faço força e peço desculpa pelo atrevimento do toque. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Luciano Alabarse)
Después, foi até o banheiro, apanhou o batom ciclamen e riscou fuerte no espelho: Sally doesn’t live here anymore. Cheirou duas ou três carreiras e, antes de sair, ainda teve tempo de jogar contra os ladrilhos a velha seringa manchada de sangre.
(Caio Fernando Abreu. A verdadeira estória de Sally Can Dance and the Kids, in: Pedras de Calcutá.)
Tu sabes como é, a gente fica pensando aquela porção de coisas destrutivas, que nunca mais vai conseguir, que secou completamente, etc.
Carta a Hilda Hilst. Caio Fernando Abreu.
Se você me amar e eu te amar, não precisamos da aprovação de ninguém para ficar juntos, como também não precisamos assinar nenhum papel ou aceitar qualquer espécie de jogo. Não acredito que maus fluidos, por mais fortes que sejam, consigam destruir um amor bonito, limpo. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun.)
É uma coisa que me dói muito, esses seus silêncios.
(Caio Fernando Abreu - Carta a Hilda Hilst)
A verdade é que não me sinto capaz de nada. Não é fossa. Fossa dá idéia de uma coisa subjetiva e narcisista. São motivos bem concretos, que inclusive transcendem o plano pessoal. E tudo tão insolúvel que a gente só pode fugir, porque ficar não adianta nada. A minha maneira de fugir, tu sabes, é dormindo. 
(Caio Fernando Abreu. Carta a Hilda Hilst)

5 de janeiro de 2012

A princípio os cavalos eram mansos. Inofensivos como moças antigas fazendo seu footing na tarde de domingo. Foi só depois de certa convivência, ganhando intimidade, que começaram a tornar-se perigosos, passando da mansidão à secura e da secura à agressividade. Quando isso aconteceu, já tudo estava perdido. Na verdade talvez estivesse desde sempre, pois convenhamos, ver cavalos, e ainda por cima brancos -não é muito normal. E quem sabe a doçura do início fosse apenas um estratagema: se de imediato os cavalos tivessem se mostrado como realmente eram, é provável que Napoleão não os recebesse. E onde eles, pobres cavalos brancos rejeitados, encontrariam outro alguém para seduzir e atormentar? Outra hipótese é que não teriam sido propriamente um mal: Napoleão os teria trazido consigo, latentes, desde o útero materno, e só de repente vieram à tona. Como se aguardassem circunstâncias mais propícias para atacar. Pois eram inteligentes. E prudentes, também.