3 de março de 2012

Pasta espiritual



Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.

Charles Bukowski

Na lembrança.


— E o que a gente vira quando vai embora de alguém?
E o Senhô respondeu:
— Uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. Outro só viram a esquina… E têm aqueles que nunca vão embora.
— Não? E eles ficam onde, Senhô?
— Na lembrança. 



Caio Fernando Abreu

Amor é uma injustiça.




Não confie na frase de sua avó, de sua mãe, de sua irmã de que um dia encontrará um homem que você merece. Não existe justiça no amor. O amor não é democrático, não é optar e gostar, não é promoção, não é prêmio de bom comportamento. Amor é engolir de volta os conselhos dados às amigas. Não se apaixonará pela pessoa ideal, mas por aquela que não conseguirá se separar. A convivência é apenas o fracasso da despedida. O beijo é apenas a incompetência do aceno. Amor é uma injustiça, minha filha. Uma monstruosidade. Você mentirá várias vezes que nunca amará ele de novo e sempre amará, absolutamente porque não tem nenhum controle sobre o amor.



Fabrício Carpinejar

Quem gosta, gosta


A gente demora pra aceitar, arruma novecentas desculpas para a falta de jeito do outro. Ah, ele é confuso. Ah, ele está tenso. Ah, ele tem medo. Ah, ele é maluco. Ah, ele isso. Ah, ele aquilo. Desculpa, mas quem quer estar junto pensa ah, que saudade. Ah, que falta ela me faz. Quem gosta, gosta. Sem complicações. Sem armações e armaduras.



Clarissa Corrêa

2 de março de 2012

Somos todos caçadores de pipas.




Amar hoje em dia é como empinar uma pipa. Por vezes se afrouxa a linha, por vezes a esticamos ainda mais pra analisar o quão longe ela consegue chegar. Mas sempre com a certeza que a pontinha desgastada da linha ainda se prende ao indicador da mão direita com a mesma força de quando era uma linha nova, recém comprada na papelaria. Ás vezes uma rajada de vento mais brusca ou uma corrente de ar mais abrupta abala o equilíbrio do movimento conseguido com tanto esforço. A pipa sobe, desce, faz que vai cair, faz que vai voar pra longe, perde o rumo, a direção, o norteio do balanço…perde a sustentação. E o que de fato acontece, é que nós, pequenas e inocentes crianças, com a sede e o alvoroço de continuar na brincadeira, com a teimosia de um garoto (a) que não sabe perder, fazemos esforços inimagináveis para manter o brinquedo no ar. Corremos daqui, dali, acolá. Amarramos um nó tão apertado no dedo, por medo do brinquedo se soltar e sumir no mundo, que chega a doer, a machucar, a ferir o dedo, o ego, a alma juvenil que no fundo tem mais gosto pela brincadeira, que pelo brinquedo.O resultado é um só: dedinhos esmagados, cheios de edemas e muito machucados. Não passamos de ingênuos e inexperientes caçadores de pipas. Grandes e tolos caçadores de amores. Seja por carência, por baixa estima, por cicatrizes ainda não curadas, aceitamos entrar numa brincadeira, num jogo de estica e puxa cujo único fim possível é a solidão. Nenhuma pipa se mantém nos céus infinitamente. Quando a brisa diminui, quando o calor dos corpos se abranda, quando chove, quando as lágrimas começam a não serem contidas, a pipa cai no chão e a eufórica brincadeira só consegue recomeçar quando o tempo estiver claro e ensolarado de novo, ou no instante em que a gente se depara com uma pipa nova dando sopa por ai. Caso contrário, o pedaço de papel que já apresentou tanta vida um dia, perde todas as cores e se torna apenas um emaranhado de fios, cores e dores no meio da paisagem inerte.