30 de dezembro de 2010

Brilhos falsos

"Daí, penso também outra coisa de gente grande:
 não adianta muito você se enfeitar todo pra uma pessoa gostar mais de você. 
Porque, se ela gostar, vai gostar de qualquer jeito, 
do jeito que você é mesmo, sem brilhos falsos."
( Caio F. Abreu )

29 de dezembro de 2010

Fadas

''Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. 
E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.''
( Caio F. Abreu )

28 de dezembro de 2010

Blues e soneto

Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquele dia em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel.
( Os dragões não Conhecem o Paraíso - Caio F. Abreu )

25 de dezembro de 2010

Caminho


(...) No decorrer da viagem, Alice encontra muitos caminhos que seguíam em várias direções.
 Em dado momento, ela perguntou a um gato sentado numa árvore:
- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
- Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.

22 de dezembro de 2010

Escuridão

Essa escuridão tem um nome? Essa crueldade, esse ódio, como ele nos encontrou? Ela se meteu em nossas vidas, ou nós a procuramos e a abraçamos? O que aconteceu conosco, que agora mandamos nossos filhos para o mundo, como mandamos jovens para a guerra… Esperando que voltem a salvo, mas sabendo que alguns deles se perderão no caminho. Quando perdemos o nosso caminho? Consumidos pelas sombras, engolidos completamente pela escuridão… Essa escuridão tem um nome? Acaso, é o seu nome?

17 de dezembro de 2010

Sentidos dormentes

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi,
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.

11 de dezembro de 2010

Apenas vá.

Se sua partida é mesmo inevitável, se sua vida é mesmo impenetrável, 
vá logo de uma vez. Não permita que eu me apegue e faça planos, 
não me deixe crer no que não há verdade. Vá antes de borrar minha maquiagem.
Não confunda meu discernimento e não destrua meu equilíbrio. 
Apenas vá. Não me deixe criar um relacionamento individual onde 
eu sou todos os personagens e nenhum enquanto você é a plateia, única, 
que faz questão de não aplaudir minhas fragilidades teatrais.
Se minhas palavras embaralhadas confundem sua mente, nem peço lucidez. 
Se sua partida é mesmo inevitável, se seu sonho é mesmo indispensável, 
se sua vida é mesmo impenetrável, ao menos arrisque me carregar junto de você. 
(Verônica H.)

10 de dezembro de 2010

Cão faminto

...às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios.

Perdas

Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça. 
(Caio Fernando Abreu)

O que você nunca vai saber

Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. 
Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. 
Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Você nunca vai saber que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. 
E a segunda opção quase ninguém mais tem. 
(Veronica H.)