27 de novembro de 2011

"Apenas já não somos mais crianças e desaprendemos a cantar. As cartas continuam queimando. Eu tentei pensar em Deus. Mas Deus morreu faz muito tempo. Talvez se tenha ido junto com o sol, com o calor. Pensei que talvez o sol, o calor e Deus pudessem voltar de repente, no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. Mas eles não voltarão. Seria bonito, e as coisas bonitas já não acontecem mais."

A que será que se destina?

Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E h...averá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes:Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num... bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

24 de novembro de 2011

Músicas

Não acredito em poetas nem em filósofos gregos ou alemães, em psicanalistas ou em biólogos. Não acredito em teorias ou conselhos, em receitas ou testes de revistas. Não acredito nos mais velhos e nem em livros de autoajuda, em filmes americanos ou na Wikipédia. Não acredito em cartomantes nem em simpatias, em cantadas infalíveis ou versículos da Bíblia. Não acredito em Eros ou Afrodite, nos programas do Sílvio Santos ou na genética. Nem no García Márquez e nem no Sternberg. Não acredito em Santo Antônio ou no Dia dos Namorados.


Eu acredito em canções. Eu acredito no Elvis Costello. Entendo tudo que os discos do Stevie Wonder querem me dizer. Acredito nos caras do Coldplay. Acredito em Solomon Burke, Cazuza, Nirvana, Queen, Tom Waits, The Smiths, All Green, Frank Sinatra, Neil Young, Verve e Radiohead. Estou com "Something", dos Beatles. Confio em "Baby, I Love Your Way", Peter Frampton. Me consolo com "Leaving On A Jet Plane", na versão de Peter, Paul & Mary. Posso ser definido por "Comfortably Numb", Pink Floyd ou pela turma do Bread, com "Lost Without Your Love". Tim Maia, John Lennon, Carly Simon, Marvin Gaye, Jim Morrison, Chico Buarque, Otis Redding. Esse é o pessoal que você realmente não perde por escutar.

Não existe nada grafado em papel ou num divã de vinil que faça sua alma compreender do que é feito o amor. Já ouviu falar em paixão, intimidade, sexo, loucura, companheirismo, saudade? Se já, aposto 50 dinheiros, não foi porque leu em algum lugar ou ouviu um professor os descrevendo. Você cruzou com isso em vida ou então pôs seus headphones e deixou-se levar por uma canção, as três de uma madrugada insone. 


Para dilatar uma alma contraída não há formação. Só duas coisas são capazes de arrepiar os cabelos do seu braço: um toque carregado de ternura ou a bela melodia num solo de guitarra. A única coisa que realmente importa acontece no pátio em intervalos, e não nas salas de aula. Seja qual for a história, se houver uma canção narrando sua situação, não importa o que disserem ou o que estiver escrito. É amor.
Depois, com pequenos beijinhos e mordiscadas virando e desvirando seu corpo, virando e revirando seus olhos, convenço que os maiores amores se acertam nos erros, quando a loucura e a entrega vencem a resistência e o medo de alguma forma. Começo num beijo no canto da boca, aqueles que cabe a você decidir se acaba, ou prossegue, tá? Então, vamos? Pega na minha mão, entra no meu carro, sobe na minha garupa. Te mostro o quanto dá pra amar no caminho.

Você virou parâmetro de comparação. Você virou o cara com quem eu comparo todos os outros. Com quem eu gostaria que todos se parecessem. Eu só olho pros outros caras procurando um cabelo tão lindo quanto o seu. Umas costas tão fortes quanto as suas. Um sorriso tão sincero nos olhos. Mas ninguém conseguiu essa façanha. Ninguém tem a sua boca fofa, a sua pele macia, o seu abraço quente. Ninguém é você e ninguém me basta tanto quanto você. Ninguém tem o seu jeito de me olhar. De falar meu nome. Ninguém tem esse cheiro. Ninguém me faz rir como você. Ninguém nunca me viu chorar com a alma tão aberta, com a cara tão pálida e o coração tão pequeno. Não consigo ser tão eu como quando estou com você.

— Brena Braz.


Eu vou continuar deixar você falando, mesmo que o assunto não me interesse, só pra ouvir sua voz. Eu vou deixar você rir das coisas mais bobas e que pra mim realmente não tem graça, só pra ver você sorrir. Vou deixar que você ouça as músicas que mais goste, ainda que eu as odeie, só pra te ouvir cantando todo bobo. Eu vou deixar que você fique me olhando até sem querer, mesmo que me deixe sem graça, só pra ver como ficam seus olhos quando me observam. Vou deixar você me pedir o que quiser, só pra que eu realize os seus pedidos. Vou fazer de tudo por você, só não vou deixar que você me deixe, eu não saberia continuar se não tivesse você. Então deixa que eu te cuido, deixa que eu te tenha, deixa, pode deixar, deixa que eu vou saber te amar.


Jamais espere ouvir ‘eu te amo’ num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir ‘eu te amo’ numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.


- Martha Medeiros.


Torcendo pro dia acabar logo e eu poder colocar o outro travesseiro no meio das pernas e endireitar minha coluna e dormir com menos dor.

Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim


"Sinto- me terrivelmente vazio. Há pouco estive chorando, sem saber exatamente por quê. Às vezes odeio esta vida, estas paredes, essas caminhadas de casa para a aula, da aula para casa, esses diálogos vazios, odeio até este diário, que não existiria se eu não me sentisse tão só."